quinta-feira, 13 de setembro de 2012

CRÔNICA DAS DUAS DA MANHÃ ou A INOCÊNCIA ESVAÍDA

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Tenho o sono pesado, é verdade. Não como na infância e na adolescência, quando nada – nada mesmo – me despertava, nem o despertador. Mas ainda falta muito para que possa dizer que meu sono é leve.
Há mais ou menos um mês, fui acordada por um barulho de moto, dessas que estão, de alguma forma, desreguladas e de fato fazem estardalhaço por onde passam. Ainda atordoada pelo sono interrompido, não cogitei levantar da cama, muito menos olhei o relógio. Adormeci pensando quem estaria naquela motocicleta, circulando por um bairro residencial por essas horas.
Quase esqueci o ocorrido no dia seguinte, vivi e fui deitar, tarde como sempre. Insone, peguei um livro e não havia nada que me fizesse largá-lo. De repente, lá pelas duas da madrugada, escuto o mesmo barulho de motoca barulhenta. Dessa vez, fui esperta, saí correndo, mas, infelizmente, não alcancei a janela a tempo de descobrir quem estava sobre aquelas duas rodas.
E assim foram as próximas noites de tal corrido mês. Todas elas. Quando estava adormecendo, ou no início do sono, lá estava o ronco do pequeno motor. Noite passada, porém, resolvi agir – como uma criança pronta a fazer estripulia, coloquei o despertador para as 2h caso dormisse antes da missão e fui para a cama ler. Não dormi, tamanha a curiosidade, e logo estava sentada perto da janela do quarto, pronta para esticar o pescoço para a rua quando a primeira nota do mistério soasse. E assim foi. “Vrum” e me levantei num pulo. As pestanas se afastaram como nunca, o objetivo das minhas lentes naturais se adequou ao escuro mal iluminado da via pública. Silenciei tudo que perturbaria meu momento. Até o coração palpitou mais baixinho, a respiração quase inaudível. Na hora H, quando o motoqueiro começava a se desprender do estigma de vulto, espirrei. Confesso: jamais vi o rosto, nem o capacete, de tal condutor. Mas nem tudo estava perdido: consegui ouvir o baque de algo caindo bem debaixo da minha janela. De relance, vi que o vulto na sombra seguia em zig-zag. Mas os olhos prontos para o escuro conseguiram localizar o pequeno pacote na minha garagem. Certamente, ali estava a resposta de um mês de curiosidade e aflição, o fim das noites mal dormidas.
Era o jornal. Sim, o que recebemos todas as manhãs. Qual não foi minha surpresa ao ser pega, após tanta expectativa, pela cilada do trivial. Era apenas o jornal! Nada mais. Que inocência pensar que seria um amante vindo ver alguma vizinha adúltera e notívaga, ou um informante do governo, seguindo de perto algum bandido de altíssima periculosidade, ou, quem sabe, algum vigia noturno em sua rota. Nada além de um entregador de jornal. Não desmerecendo a profissão. Apenas é impossível que isso absorva toda a vontade de mais que meu inconsciente possuía.
Há algo, porém, que agora me fascina. Essa rotina, essa mesma, que nos rodeia a todos, tem milhares de vieses que são capazes de fazer sonhar a mais cética das mentes. Descortinei o mistério das duas da manhã. Mas que outros me aguardam?

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