terça-feira, 3 de julho de 2012

QUATORZE ANOS

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Era sexta-feira. Quem mora em Belo Horizonte, ou freqüenta esta capital, sabe que pegar um avião não é algo tão simples. Certamente, não me refiro ao medo particular de entrar na aeronave, ou dos costumeiros atrasos e cancelamentos. Refiro-me ao fato de o aeroporto internacional de Belo Horizonte estar situado, na verdade, na cidade de Confins, na região metropolitana da capital mineira. Como o nome sugere, Confins é realmente nos confins do mundo. Recentemente, inclusive, foi construída a nova “cidade administrativa” do Estado de Minas – monumento JKístico de Aécio Neves, assinado por Niemeyer, mas isso é outro assunto. A tal obra, que hoje sedia o governo, está bem próxima (cerca de 10 km) do aeroporto. Entretanto, estão sim, as duas, nos confins da terra. O Aeroporto Internacional Tancredo Neves (olha, Aécio, teu avô!) está a nada menos que 40 km do centro de BH. Sim, QUARENTA. Lá onde Judas perdeu as botas, bem depois do final da Avenida Cristiano Machado, em dias normais, você consegue levar seu velocímetro até 100, 120 km/h. Entretanto, até lá chegar, prepare-se. Não bastasse o tempo gasto no habitual congestionamento central, há que estar com o sangue frio ao adentrar a supracitada Cristiano Machado. Que avenida! Sempre lotada, com carros completamente tontos, trocando de pista o tempo todo, obras intermináveis. É uma luta. Para quem mora na região, imagino como é enfrentar tal inferno diariamente. Meus pêsames.

Após a contextualização, volto de onde parei. Era sexta-feira. Minha mãe voltava de uma viagem de dois dias a trabalho para a Argentina. Eu, sem muito o que fazer no meio da tarde de sexta-feira, já quase de férias, resolvi buscá-la, para evitar que a pobre pegasse um táxi ou um ônibus de turismo. Afinal, eu, pessoalmente, amo ser recebida quando chego, mesmo após pouco tempo fora, e não é sempre que posso fazer esse agrado. “Eu vou”, disse a ela. Quase saindo de casa, tive a brilhante ideia de convidar minha irmã para ir comigo, afinal, seria uma boa companhia para dar umas risadas e desanuviar a tensão de trafegar a 20 km/h. Izabele tem quatorze anos, e topou na hora. O que foi uma alegria, pois ficamos uma hora e meia presas no veículo esperando que algo divino acontecesse e os outros carros evaporassem. No caminho, o fato se deu. Ouvíamos música, ela conectara seu “ipod” no som do carro, e lá íamos chegando ao centro da cidade. Começou a tocar uma música, bem pop, bem melodiosa. Perguntei de quem era. Ela disse “One Direction”. Respondi: “Essa é aquela boy band de que ouvi falar esses dias?”. Choque. Ela respondeu: “Boy band? O que é isso?”. Choque. Respondi: “Tipo Backstreet Boys, N’Sync, New Kids on the block, Hanson.” E ela: “Quem?”. Choque. Total e absoluto. Momento de epifania: “estou velha”. Em poucos segundos, entendi que sim, o tempo estava passando rápido demais. A atual já não é mais a minha geração. Já sou ultrapassada. Meus ídolos de infância e adolescência já são desconhecidos, ou estão em vias de sê-lo. Uma hora depois, chegamos ao aeroporto e lá esperamos mais um bom tempo até vermos nossa mãe e enfim voltarmos, mas nesse tempo ouvi, com carinho e nostalgia, o que a não-mais pequena me colocava a par.

No dia seguinte, sábado, recebi um convite irrecusável. Minha melhor amiga, e irmã de coração, a Mirella, me convidou para ir ao cinema, no shopping onde passamos nossa adolescência. Convite aceito na hora. À noite, assistimos um romance água com açúcar, comemos pipoca com copos imensos de cola-cola, fomos às Lojas Americanas, compramos doces e nos sentamos a conversar. Mais do que sobre nossas vidas presentes, falamos do passado, de pessoas e situações de outro tempo, de dias que estão tão longe e já foscos na memória, mas eternamente em nós. Relembramos pessoas que nunca mais veremos, contamos as aflições que só ali poderiam ser ditas e revelamos medos parecidos pelo futuro. Ficamos, como quando tínhamos quatorze anos, fofocando. Ali, não me senti velha, nem ultrapassada, nem de outra geração. Tive novamente os meus quatorze anos. Como o tempo é relativo... Na sexta-feira, uma velha. No sábado, quase uma criança.

Tenho um irmão e uma irmã de sangue. Mas tenho também uma de coração, e esta sabe quem são os Backstreet Boys. 

2 Comentários:

Fernanda Moraes disse...

Obrigada pelos pêsames! Já estou dando um jeitinho de evitar a Cristiano Machado ao máximo.

Você e Mirella são duas lindinhas!

E os Backstreet Boys sempre serão ídolos

Ana Carolina disse...

Também chorei ao ler. Qd encontramos quem fez parte de nossa juventude o tempo fica adimensional, voltamos na alma, só o corpo permanece. Parabéns pelo texto.

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