segunda-feira, 7 de maio de 2012

A SÍNDROME DE UNDERGROUND (Ou o texto que todos odiarão)

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Tenho uma teoria. Aliás, tenho várias. Mas essa me é recorrente e resolvi registrá-la. Noto que certas pessoas têm prazer em pensarem ser exclusivas. Costumo chamar tal patologia de “Síndrome de Underground”. Durante muito tempo, observei os babacas exemplares e cheguei à conclusão de que se separam em três níveis, sendo o terceiro o mais grave.
Numa primeira fase, as pessoas sentem ciúmes de algo que gostam e que, de repente, muita gente passa a gostar também. Se você que me lê sente isso, considere-se normal, porque é muito humano sentir recalque por não ser mais exclusivo em algo. Por exemplo, se alguém descobre aquele seu filme preferido e começa a divulgá-lo por aí, você sente ciúmes porque, se ele é realmente bom, em breve será também o filme preferido de muita gente. Repito: até aí, tudo certo.
Quando se chega ao segundo nível, você pode ser também considerado preconceituoso, o que, convenhamos, é grave, e diz muito sobre a pobreza de espírito. Nessa fase, não só o descontentamento te motiva. Você também tem raiva porque aquela “gentinha” compartilha de seus gostos. “Como pode AQUELA pessoa gostar da mesma banda que eu?”. É, meu amigo, o problema é com você.
O terceiro nível, que eu já considero de fato uma doença, é a incapacidade de uma pessoa conviver com o popular. “Ora, eu era tão fã daquele cartunista, mas ele se tornou tão popular que já desgosto dele.” No fim das contas, o “underground-wannabe” de terceiro nível não passa de um metido, boçal e patético maníaco, que prefere o apertheid cultural a ser considerado apenas mais um fã de.
Para corroborar minha teoria, pensei em exemplos. Todos os que cito são reais, observei eu mesma, com gente (por vezes infelizmente) muito próxima. O primeiro, que muito me irritou, foi quando ouvi por aí que a Starbucks do Brasil seria “pior” que a de fora. Facilmente percebi que o problema da pessoa era o recalque porque o seu “cafezinho” preferido tinha deixado de ser produto exclusivo de importação. (E tenho essa certeza porque a própria pessoa confessou não ter provado, ainda, o produto produzido aqui). Ora, ir à Europa, tirar foto com o copo moderninho e postar na internet fazendo uma cara blasé não tem mais a mesma graça. Afinal, qualquer um agora pode ter acesso à loja. Para falar a verdade, eu odeio a Starbucks. Odeio mesmo. Ninguém que goste de café pode gostar daquela água suja colorida que eles chamam de ‘frapuccino’. Mas essa não é a questão. Porém, para os exclusivistas, tenho três sugestões: 1) mudem-se para o primeiro mundo, para poder saborear seu café bem-nascido. 2) bebam café apenas nas suas férias. É bom que economizam. 3)revejam seus conceitos sobre qualidade. Se você quer comer aquela massa artesanal tipicamente italiana, ou beber aquela vodka cremosa em temperatura ambiente, tudo bem querer ir à Itália ou à Rússia. E, se possível, leve-me com você. Mas Starbucks? Aquela coisa industrial e você querendo beber na fonte? Então vai me dizer que McDonalds bom mesmo só na terra de Tio Sam? Poupe-me! É quase como exaltar o miojo de galinha caipira em detrimento do de carne. Qual a qualidade superior de que estamos falando? O senhor quer mesmo é ficar posando de viajante, cidadão do mundo.
Outro exemplo, bem comum, é querer que seu cantor preferido seja desconhecido. Mais uma vez digo que entendo o ciúme, é normal. Mas, não faz sentido. Se você não é capaz de dividir o gosto musical, seu objeto de idolatria jamais será capaz de ter o público mínimo necessário para fazer uma apresentação. Ou, em casos mais extremos, não produzirá um álbum só para você comprar, não? Que egoísmo o seu! Quer tudo para si e, com isso, deseja o fracasso de seu cantor de preferência. Acho bom repensar.
A última situação trata de uma histeria coletiva. E, escrevendo isso, estou fazendo inúmeros inimigos de infância. Mas, há que ser dito. Desde o lançamento do aplicativo ‘Instagram’, antes apenas disponível para os felizes proprietários de um iPhone, é moda colocar fotos descoladas e com filtros diversos, com poses para lá de inusitadas. Ali surgiu a revolução hipster no mundo da fotografia de internet. Os então usuários faziam parte de uma seleta patota destinada a ter as fotos mais incríveis de todos os tempos. Ledo engano. Como tudo que nasce para ser social (as redes virtuais são SOCIAIS, vale lembrar), o ‘Instagram’ logo foi passível de uso também pelos usuários do sistema operacional ‘Android’. Como é o mais usado atualmente, e dezenas de modelos de aparelhos, de diversas marcas, suportam o sistema, logo o recorde de pessoas usando o tal aplicativo se instaurou. Gente de todo tipo pode finalmente utilizar o atual objeto (?) de desejo da postagem de fotos. E aí, como não poderiam ficar calados, os exclusivistas do mundo da Apple (marca do iPhone), ficaram revoltados. Não foram todos, vale salientar. Mas a quantidade de gente se manifestando com ódio, por ter sua rede s-o-c-i-a-l exclusiva invadida, me deixou assustada. Atenção, se a função de uma rede do tipo é compartilhar, tão melhor seria a maior quantidade de usuários, não? Mas a mente humana ainda cai nas armadilhas do ego, se não bem policiada. E muita gente se deixou levar pela ideia de que, com a perda da exclusividade, a importância de tal aplicativo cairia vertiginosamente. E não é que muitos pararam de usar. Pois, no fundo, esses boçais do terceiro nível de “síndrome de Underground” fizeram um favor à sociedade. Ninguém merece ver as fotos de gente que se acha melhor que os outros pela marca do celular. E o termo “orkutização” é para lá de desnecessário, me recuso a comentar.
Encerro com um pedido e uma dica: quem enxergar o assunto como eu, cuide de sua mente. Se solta, ela poderá te levar a ser mais um a fazer papel de chato. E se, como eu, você for um chato irremediável, ao menos compartilhe o que de melhor você tem, seus gostos e conhecimentos de mundo.

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