sexta-feira, 27 de abril de 2012

JORGE

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As manhãs são sempre iguais no centro da cidade. As mesmas pessoas disputando espaço, furando as filas dos coletivos e protegendo as bolsas e mochilas do ladrão invisível que, também em todas as manhãs, bate carteiras mil, mesmo que dentro delas não haja um tostão. Jorge sempre se perguntava qual seria o destino de todos aqueles documentos, cartões-fidelidade, cartões bancários e fotos 3x4 que o ladrão levava a reboque em seus furtos. Poderia um assaltante ter a sensibilidade de guardá-los e colecioná-los? Ou seria civilizado e devolveria no lugar competente, dizendo, inocentemente, tê-los achado? Por fim, poderia o criminoso finalmente dar identidade a parentes e amigos emprestando-lhes o documento alheio? Jorge jamais pensaria que o trombadinha poderia simplesmente jogar no lixo, ou no primeiro esgoto aberto, todos aqueles papéis plastificados que nada queriam dizer a quem não sabia ler. Para Jorge, uma carteira de identidade era algo a ser preservado e cuidado carinhosamente. Afinal, sem aquele pedaço de papel, ele nada era. Seria apenas o Jorge da Rua Quinze, esquina com a Rua do Comércio. Mas não, ele era Jorge João Fernandes, filho do João e da Joaquina, e irmão do João Jorge. E tinha 39 anos, como atestava seu precioso documento. O ladrão não seria louco de jogar qualquer documento fora. Claro que não. Nem o dele.
Na terça-feira, Jorge levantou-se, não deu beijo em ninguém – porque não tivera a chance de casar-se com alguém – e saiu sem comer. Normalmente tomava uma xícara de café sem asa, mas hoje não o faria, porque a empregada não viria para lavá-la (ela nunca havia ido – Jorge nunca tivera uma empregada, mas sempre agia como se ela estivesse de férias). Com a gastrite que não deixava seu estômago em paz atacando há dois dias, as chances de lavar a própria xícara diminuíram sensivelmente. E na terça-feira Jorge saiu sem café. O que não era de fato um problema. Ao lado de sua casa – correto seria dizer: casinha -, havia uma padaria que funcionava desde cedo, e o camarada que comandava o lugar, diziam ser o próprio dono, sempre atendia com muita solicitude. Jorge, porém, não tomava café fora de casa. Então pediu uma Coca-Cola e uma coxinha, que precisou ser frita às pressas. Às oito da manhã, seus hábitos alimentares causavam estranheza, mas Jorge dizia sempre: “manhã é quando estou em casa”. Fora dela, era, portanto, dia. E dia nenhum pede rigidez de cardápio nutricional. A dupla média quentinha com pão na chapa era pouco para as ambições do homem, ele queria algo que o fizesse sentir pertencente ao dia, no ritmo frenético da cidade que o rodeava. A cidade, por mais cosmopolita e capitalista que fosse, não bebia Coca-Cola antes do meio-dia... Isso faziam apenas estudantes sonolentos em busca de cafeína sem amargor e adultos metódicos. E Jorge, que não era nem um nem outro. Ou pelo menos era o que pensava.
Não carecia andar muito e Jorge estava na cidade, como gostava de dizer. Para elucidar, Jorge andava pouco ao sair de casa e chegava ao centro comercial de sua cidade. Começava mais um dia do homem que nada fazia na vida, além de negar o fato de não fazer nada. O lugar simples que morava não mostrava a riqueza que seus cofres guardavam, herança de uma avó simpática, que o criara com amor e afeto, mas que, depois de morta, deixara-lhe apenas o dinheiro. Tudo que ela gostaria que o neto tivesse aprendido se perdera quando o caixão bateu na terra. Qual era mesmo o nome dela, perguntava-se o neto. Mas o dinheiro não saía da memória. Cada cifrão era lembrado com carinho e cuidado, a minúcia no controle das contas era extrema. E a cada mês Jorge gastava com os almoços diários no mesmo restaurante sujo, com pães e café para as manhãs e, nos fins de tarde, com cigarros, muitos cigarros. Roupas só comprava no fim do ano, e não se lembrava de quando havia ido ao mercado, pela última vez, atrás de material de limpeza. Obviamente passava um pano quando dava tempo, mas era apenas úmido em água, para quê mais? Ah, e comprava também gel, afinal precisava esconder com o cabelo lateral aquele início de calvície, que herdara sabe-se lá de quem. A avó sempre fora muito cabeluda. Fora? Ou seriam perucas?
Jorge tomou sua Coca-Cola e foi embora, apesar de ter pagado a coxinha recém-frita. Não estava com a cara boa, não lhe apetecia comer nada que não implorasse para ser comido. Caminhou até a tabacaria e escolheu os cigarros do dia. Acendendo o segundo sem haver terminado de tragar o primeiro, tropeçou e amaldiçoou a pedra solta da calçada. Era uma preta, desprendida de um desenho que tentava imitar o calçadão de Copacabana em menor escala, mas que ali, em plena cidade, era uma ironia sem fim. O maior conceito de onda que se tinha ali eram as ondas de calor insuportáveis que começavam a subir lá pelas dez da manhã, e que não quebravam na praia até as três da tarde. Assim era o ano inteiro, exceto em dezembro, quando chovia consideravelmente, e as ondas que se viam eram os alagamentos pelas ruas. Nessa mesma época, Jorge calçava seus sapatos surrados e ia comprar uma calça e uma camisa nova. Com bom humor, comprava também uma meia. Não comprava cuecas porque não usava. E lenços, muitos lenços. Sua coleção de lenços contava com mais de trinta, todos brancos e novos. Se ficavam puídos ou velhos, iam para o ralo. Jorge não tinha lixo em casa, jogava tudo que não lhe servia pela fossa. A prefeitura, certa vez, fora acionada para resolver um entupimento em frente à sua casa, e ele se escondeu atrás da persiana e riu com gosto dos esforços inúteis de puxar um saco plástico que se despedaçava nas mãos dos bombeiros hidráulicos. Jorge adorava um segredo, e aquele era só dele. Fora ele que jogara o plástico, ele que entupira o cano da rua toda. Ele que fazia aquela algazarra no recolhimento do esgoto, e adorava fazer-se de ausente quando batiam à sua porta para perguntar se a culpa era dele. Jorge não tinha amigos, mas compartilhava seus próprios segredos com a confiança de que não se entregaria a ninguém, em momento algum. E por isso nunca contou a ninguém sobre os cadáveres que escondia no porão.
Naquela terça-feira, Jorge tropeçou mais duas vezes. Na terceira, um ladrão empurrou-lhe com tal força que fez com que caísse ao chão. Pegou sua carteira e os dois novos maços de cigarro. O furtado mal se mexia, o que ainda deu tempo de o ladrão rir de sua situação e cuspir aos seus pés. Levantando-se rapidamente, o homem desistiu de correr atrás de seus pertences quando viu que o criminoso atirava sua carteira de identidade no bueiro. Jorge ficou desnorteado. Só pensava em ir para casa e sentir o cheiro de putrefação. Correu e foi atropelado por um caminhão frigorífero. Morreu na hora.

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