sábado, 21 de abril de 2012

DESENCONTRADO

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Tantos encontros e desencontros depois, já acostumado a crer que o amor era invenção moderna, tinha certeza que aquele sentimento que um dia sentira era um nome inventado para rotular a necessidade de companhia e a carência, tão intensas neste louco mundo novo. O ceticismo era tal que todo romance se fazia risível, qualquer música lenta era motivo de zombaria e o encantamento estava no fugaz, no mundano, no carnal. Não buscava nada além de preencher a noite. E acabava preenchendo também a cama. Queria livrar-se do medo da solidão, então se sentia ridículo e fingia-se suficiente para si próprio. Dançava sozinho qualquer balada, qualquer bolero. Vestia suas roupas sem contar com opinião de ninguém, e dava presentes a si mesmo. Girava as folhas do calendário sem pensar em data alguma, exceto nos vencimentos de contas, que um dia tivera ajuda para se lembrar. A idéia de eternidade, outrora expressa em sonhos de construir uma nova vida, de ser fértil e fazer-se pai, era agora o conteúdo de um baú trancado a chave, jogado no fosso do escuro do resto de sua memória. O ideal era que nada atrapalhasse a paz de ser tão perturbado e solitário. 
Ele era nada, nada, nada, não, nunca e, principalmente, ninguém.
E ela atravessou o seu caminho. Não poderia ser mais irônico tal encontro. Ele, que odiava o clássico, viu diante de si uma Monalisa misteriosa, com um sorriso de lado que o fez esquecer que dia era. Travou a batalha que precisava em menos tempo que julgaria ser capaz, e ouviu, pela primeira vez em tempos, uma voz aveludada, nada estridente, como todas as outras. Sentiu cheiro, já nem se lembrava mais como era o perfume de uma mulher. Não esses que se vendem em caixas caras. Mas aquele cheiro que um dia o fez querer ter como único sentido o olfato. Com as mãos experimentou o toque do cabelo, deslizou os dedos por entre os longos fios e desejou que eles não tivessem fim. Com a mesma mão, sentiu a pele arrepiar quando a envolveu no primeiro abraço. Ele ansiava sentir o gosto, prover-se de usar o último sentido, salivava ao pensar em explorar aquele resquício de novidade. Ele, que se fizera tão insensível, cedia novamente à sua natureza de romântico. Chegou até o fim do desejo, quis beijá-la, quis experimentar, apesar do gosto de álcool na boca, aquele momento sublime.
Foi quando voltou a si, deixou que a memória falasse, deixou que as lembranças tomassem conta do lugar onde havia expulsado-as tantos anos antes. E viu diante de si a mesma mulher que um dia o fizera querer esquecer o amor. Era o amor zombando do próprio amor. Ela desvencilhou-se e foi embora.

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