quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

PROFISSÃO - ESCRITOR

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Levanto-me, embargado. Mais uma tarde desponta, ao raiar do meio-dia. Não me alimento direito, nem me sinto limpo. Mal tomo uma xícara, sem a asa, de café.


Sento-me diante de minha única companheira e começo a dedilhá-la. Conto-lhe, com as mãos, histórias fantásticas, melodramas cômicos e confidencio-lhe reflexões existencialistas. Ela é rouca, está um pouco travada e range ao meu toque. Não está confortável. Nem eu estou. Mas seguimos nosso ritmo, eu, por vezes, acomodando-a melhor diante de mim. Quase que nos encaixamos e tornamos um só. Ela não se queixa, porém, de minha intensidade. Dou-lhe tudo que precisaria para revoltar-se e me abandonar. Sou um velho para o que quero ser. Passo dos sessenta, mas ainda não vivi tais anos. Certamente gostaria de voltar no tempo e recomeçar. Mas, não há tempo. E sinto-me tão confortável em meu desconforto, tão boêmio em meio às garrafas vazias e aos restos de cigarros, que não quero mudar. Tenho um quase orgulho em ser quem sempre odiei.


Tenho quarenta e sete anos. Fui abandonado pelos filhos que a vida me deu, mas não me incomodo. Tenho uma companheira que não me falta. Não é de falar, mas acompanha-me onde quer que eu vá, se ajusta a mim perfeitamente, e está sempre disposta a entender o que lhe confio. Estou emagrecendo, as calças caem. O desleixo, entretanto, é inevitável. Sair à rua para comprar cintos parece um desperdício, quando se pode sempre pedir ao porteiro que compre uns pães e alguma birita. O troco é dele, poupa-me o esforço. Minha mãe velha, que me fornece sua pensão quase integralmente, é a única visita que recebo, apenas uma vez ao mês. Sirvo-lhe chá com adoçante, ela mesma traz. A velha lê sempre o mesmo livro, que a empresto. É o tempo de uma tarde. Sempre à tarde. Ela chega, me abraça, passa o envelope com vergonha, como se fosse uma injúria sustentar um filho. Abraça-me novamente, eu a agradeço de bom humor, mas não sinto gratidão. Digo que estou muito ocupado, volto à minha companheira e deixo minha mãe lendo o mesmo romance de toda vez. Nem me lembro mais do título, já fica acima da estante, ao alcance de minhas mãos. A rotina é maquinal, não observo o que faço. O sol cai e ela anuncia, festiva, que acabou de ler. Já nem se lembra que tomou seu chá. Eu a acompanho até sua casa. Bato o portão que range muito e volto. Preciso contar o que pensei.


Ontem aniversariei. Ligaram-me meus pais, minha irmã e a seguradora, oferecendo um novo plano. Pelo aniversário, de fato, só recebi os parabéns de minha mãe. Meu pai me avisa que é a última mesada que recebo. Com trinta e seis anos já posso me sustentar sozinho. Minha irmã liga pra dizer que “o velho” não está bem. Ele não sabe, mas não lhe resta muito tempo. Finjo estar compadecido e ofereço ajuda, apenas porque sei que não precisarei prestá-la. Feliz com a aquisição de um ano de vida... Estou orgulhoso. Sou um homem maduro, competente, inteligente, cheio de idéias para contar. Bebo porque inebriado posso me comunicar com mais fluidez. Já não tenho sucesso com as mulheres, mas creio ser temporário. Já não sou um garoto, ainda não atingi a totalidade dos cabelos grisalhos. Estou, portanto, em uma transição. Sou um sobrevivente da mediocridade, afinal, tenho aquela companheira que me enleva. Posso, com ela, deslocar-me da penúria do mundo humano. Temos momentos de muita intimidade. Meus dedos a tocam com respeito, em seguida estão frenéticos, e logo entramos juntos em um frenesi que resulta sempre em algo grandioso. Não tenho porque temer. Ela jamais me deixará, e eu, com ela, estou completo.


A vida está radiante. Já não tenho o que temer. Futuro? Já o conheço, já planejei. Só me resta cumprir a estrada que eu mesmo determinei. Afinal, sou competente, e meus pais sustentam minha criação. Hoje me sinto mais forte, não preciso esconder o que penso. Já sou independente e tenho minha vida nas mãos. Minha mãe faz tudo por mim e meu pai reclama de mim apenas para impor respeito como patriarca. Minha irmã saiu de casa, casou-se com um funcionário medíocre de um banco da cidade. Ele recebe salário, que patético. Não sabe pensar, é um autômato. Em dezembro terá férias e em breve reproduzirão. Gerarão filhos boçais que gastarão todo seu dinheiro em busca de suas realizações pessoais, absolutamente fantasiosas, egoístas e sem propósito. Eu sou quem salva na família. Tenho vinte e dois anos, tenho uma companheira inseparável, e nenhum medo do futuro.


Olá, tenho vinte anos e me chamo Aurélio. Ganhei uma máquina de datilografia, que será por diante minha companheira inseparável. O sucesso é questão de tempo, já me considero um escritor, e não penso como ninguém.




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