domingo, 1 de janeiro de 2012

A CONTAGEM DAS RABANADAS

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Final de ano, início de um novo. E o mesmo e estranho fenômeno volta a assolar as pobres mentes – e estômagos – humanos: a fome. A tradicional culinária brasileira (que é, deliciosamente, um grande caldeirão cheio de temperos e sabores de todos os lugares) mostra os tons que guarda para as celebrações de final de ano. E aí começa o deleite dos gordinhos de plantão, os gordos de fato ou aqueles de pensamento pecaminosamente guloso. Pernil, tender e peru, calda de abacaxi, de laranja e de maçã. Damasco, ameixa e nozes. Rabanada, rabanada, rabanada. E rabanada. Arroz com passas, molho de champion, rondelli de frango. Para acompanhar, cerveja, uísque, muito vinho tinto, vinho espumante e, claro, doses colossais dos mais variados refrigerantes – comum, diet, light e zero. Depois, quando o corpo pede penico, terminamos de aniquilar a dignidade e, invariavelmente, a dieta de um ano em tortas, doces, sobremesas das mais variadas e, como não poderia deixar de ser, rabanadas.

Começo mais um janeiro com a mesma sensação de todos os anos, de que preciso voltar à rotina. Peço armistício dos grandes pratos, não posso continuar tão desregrada. Por isso, não sou das que fogem de estabelecer metas e resoluções de ano-novo, mesmo que cumpri-las não seja um ultimato. Como toda mulher, prometo a mim mesma controlar a compulsão de continuar com a surreal dieta de dezembro, de saber distinguir o que é necessário e o que não passa de pura e simples gula. Refrigerante? Só o zero. Tortas e doces só aos finais de semana. As rabanadas estão irrevogavelmente suspensas por um ano. Sobra na despensa o comum dos onze meses comuns. E sobra também a dúvida: de onde vem toda aquela voracidade?

Peguei-me pensando sobre o que significa tanta urgência em viver na fartura, depois de um ano inteiro de contenção de calorias. Ora, é bem simples. Passamos os meses contando. Contamos dinheiro, pois ele será necessário pra comprar todos aqueles presentes que necessitamos distribuir para a enorme família. E para pagar as férias. Contamos também os minutos para que cheguem tais dias de descanso. Contamos as horas de cada dia para sentir o frescor da liberdade. Contamos os amigos que merecem nosso tempo, contamos os familiares que merecem ser convidados pras festas. Contamos nos dedos as vontades que nos permitimos cumprir sem pensar demais. Contamos o troco do lanche apressado, contamos os segundos (intermináveis) até que o sinal vermelho torne-se verde e o mundo abra caminho novamente. Contamos no ponteiro quanto falta até recarregarmos o carro com sua energia vital, a tão cara gasolina. E aí contamos quantos litros de álcool precisamos colocar misturado pra que a contagem da fatura do cartão de crédito não seja tão dolorosa. Contamos quantos comprimidos faltam até que a próxima cartelinha de remédio precise ser comprada. Contamos mentiras pra podermos contar com nossas verdades. Contamos com os outros e, desapontados, contamos como são maus. Contamos vantagens, contamos história. Contamos quanto aprendemos, sem contar que conhecimento é qualitativo, não quantitativo. Contamos quanto recebemos e quanto gastamos, pra sabermos no final com quanto podemos contar. Como pastores, contamos quantas ovelhas arrebanhamos, com nossas ideias infalíveis e conceitos deturpados. Contamos quantos números faltaram pra ganharmos na loteria. Contamos a outros, com tristeza, que foram poucos. Contamo-nos burros, por não saber contar e deixar tanto se esvair. Contamos muito, cantamos pouco.

E aí vem a época da libertação. Esquecemos toda a ideologia que contamos (e cantamos) aos quatro ventos durante todo o ano e nos entregamos de braços abertos à época do consumismo, das alegrias fugazes, dos encontros (inevitavelmente seguidos de desencontros) e, claro, da comilança. Falta tão pouco para o gran finale, que não queremos mais contar. Já estamos na sobra, tudo o que vier é lucro. E aí o instinto animalesco de comer tudo que for possível toma conta. E comemos, comemos, comemos. Comemos presentes, comemos abraços, comemos fogos de artifício,comemos árvores de Natal, comemos shoppings, comemos as pessoas amadas (no melhor sentido), comemos músicas repetitivas (e por isso, comemos todo ano a Simone), comemos alegria, comemos e bebemos doses homéricas de tudo. E comemos rabanada.

Mas que mal pode haver? Esquecemos, pela primeira vez no ano, de contar com o óbvio, com o evidente. Em breve outro ano despontará e nos contará que, mais uma vez, somos ábacos incansáveis, por mais longos onze meses. E aí voltamos a contar tudo de novo. Essa eu tive que contar.

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